A velha casa
construída pelos antepassados do escritor fica isolada num alto depois da Curva
da Morte. Dentro das terras da Fazenda Solidão a paisagem é fascinante. Um
lugar cheio de encantos naturais que inspiram o escritor Rodrigo a escrever
seus romances e poesias. Sua vida está plantada como profundas raízes no chão
desse lugar. No entanto, por causa das muitas dívidas contraídas por Absalão
seu irmão mais moço, a propriedade terá que ser vendida. Elizabeth, moça rica e
mimada propõe comprar a fazenda para ajudar ao escritor, porém impõe uma
condição que Rodrigo a princípio não quer aceitar.
Margarete Solange, autora de doze obras publicadas, em 2009, foi premiada no concurso literário, escritor Norte Rio Grandense com a obra "Ninguém é Feliz sem Problemas e outros contos"; em 2014, recebe premiação pelo conto "A intrusa". Dona de um estilo criativo, divertido e inteligente, surpreende com o talento para criar em prosa e a arte com que lapida seus versos.
O homem pode não ser rico, mas se ele tiver na bagagem a leitura será mais que isso: será sábio. A sabedoria, sem dúvida, é grandiosa, é tudo na vida, não na morte. Na morte, todos os homens são igualmente leigos.
Margarete Solange. Contos Reunidos, p. 98
sábado, 7 de julho de 2012
domingo, 1 de abril de 2012
Uma Máxima
O homem pode ter asas em sua
imaginação e garras como as águias, senhoras das alturas. Se acreditar que é
capaz.
Margarete Solange
trecho da
obra de Margarete Solange,
Inventor
de Poesia,
Queima-bucha,
2010, p. 143
sábado, 24 de março de 2012
Tenho aprendido que...
[...] tenho aprendido com todas essas coisas que queremos conhecer e compreender a outros, quando na verdade não somos capazes de entender a nós mesmos. Podemos afirmar que conhecemos e dominamos todos os pensamentos e sentimentos que secretamente se instalam em nossa mente?...
Do livro “O Silêncio das Lembranças” da autora Margarete Solange
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Sombras
Quando a lua está cheia,
Lembra-me você
E isso me faz muito triste.
Não sei explicar por que está nos
meus sonhos,
Nem por que entrou em minha vida.
Às vezes tento odiá-lo, porém não
consigo.
Você é como um fantasma,
Tento matá-lo e penso que está
morto,
Mas um fantasma não morre
Nem se torna real...
Fantasma mau!...
Assusta-me e foge tão depressa
Que quando abro os olhos
Já não está junto a mim.
Minha sombra, meu lamento...
Lado ruim de mim mesma
Que não se encaixa em lugar
nenhum.
Não entre mais nos meus sonhos,
Não invada os meus pensamentos.
Não há lugar para você em minha
vida,
Sua presença escurece os meus
dias.
Você é a noite sem luar,
Mas a lua cheia me faz lembrar de
você...
E não posso explicar por quê.
Um dia vou despertar e perceber
Que o pesadelo acabou
E quando eu o encontrar
casualmente pelas ruas,
As sombras não me importunarão
mais,
Não mais...
Você será apenas um homem como
qualquer outro
E eu estarei livre de seu
fantasma
Para sempre.
Fotografia de Felipe Galdino
Horas Perdidas
poesia
de Margarete Solange
Quarenta anos...
Dias e horas vividas sem realizar grandes feitos.
Ocupando-me com serviços banais
Que não prometem frutos no amanhã.
Fazendo e desfazendo todos os dias as mesmas coisas.
Quarenta
anos,
Sem ter conhecido o mundo em derredor de mim,
Sem ter conhecido a mim mesma profundamente.
Quantas horas perdidas em lamentos e lágrimas,
Bebendo e comendo
Apenas para cumprir a sequência dos dias.
Quarenta anos,
Dia após dia querendo crescer em palavras,
Buscando o sentido da verdade e da beleza.
Tentando entender o comportamento das pessoas
E sentindo-me tão incompreendida.
Vão-se os dias,
Aprendo palavras, acumulo experiências,
Nem sempre me convence a explicação das coisas.
Desejo ver o mundo com meus próprios olhos.
Desejo aproveitar melhor os anos que passam por mim.
Inventor de Poesia
Queima-bucha,
2010, p 36
2010, p 36
Questões de Lógica Infantil
poesia de Margarete Solange
Se o macaco-prego
Quer uma linda namorada,
Qual das duas é melhor:
Macaca-prega ou
Macaca-pregueada?.
Dona Grila
Teve seis grilos,
Todos seis eram grilados.
Um grilo bateu as botas
E três ficaram curados.
Quantos grilos estão grilados?
Se a galinha dos ovos de ouro
Tiver vários filhotinhos,
Eles serão pintos de ouro
Ou galinhos douradinhos?
.
.
Se o casal de cágados tem
Um montão de filhotinhos,
Eles são filhotes-cágados
Ou filhotes cagadinhos?
.
.
O boi búfalo
Quer uma búfala
Com quem possa se casar,
Quando nascerem os filhos
Inventor de Poesia Infantil:
Fantoches e Poesia.
Queima Bucha, 2010.
Ilustrações de Jorge Davi
Minhas Primeiras Leituras
Crônica de Margarete Solange

Sempre fui apaixonada por leitura. Nem lembro
como essa paixão começou. Quando aprendi a ler, eu ficava bem perto do meu pai
enquanto ele dirigia para que me ouvisse ler os letreiros que surgiam em nosso
trajeto. Ele ficava encantado porque eu sabia ler. E porque ele ficava
encantado, eu lia tudo o que via pela frente para receber elogios.
Como éramos muitos
filhos (nove), estudamos em escolas públicas, e meu pai não podia comprar
livros. Na vizinhança, havia uma menina, colega de brincadeiras, que tinha em
sua sala uma estante cheia de livros. Eram os clássicos da literatura infantil,
uma riqueza! Eu me sentava em frente à estante e ficava olhando os livros para
sondar o ambiente e saber se era permitido pegá-los ou não. Estudava as expressões
dos rostos das irmãs mais velhas e da mãe da menina. Se não fizessem cara
sisuda, era sinal de que eu poderia pegar os livrinhos para ler. Poder lê-los
trazia-me uma alegria infinda!
Eu era tímida ou
acanhada demais para ter coragem de pedir permissão aos adultos para fazer
qualquer coisa que fosse. Esse medo de me expor e enfrentar pessoas trago até
hoje. Procedi dessa forma por muitas e muitas manhãs, mas nenhum adulto daquela
família colocou obstáculos para que eu lesse os belos e bem ilustrados livrinhos.
E assim, li muitos livros, até mesmo “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas,
embora ainda não tivesse idade para entender bem o enredo dessa história. Para
não desmerecer a confiança que tinha conquistado, eu segurava os livros com
muito zelo, enquanto os lia ou folheava. Esses momentos de leitura eram ricos
para mim e, por isso, ainda guardo na memória todo o ambiente que me cercava enquanto
eu lia ou relia meu grande tesouro, sentadinha no chão da sala em frente à
estante de meus cordiais vizinhos.
Lembro-me também de
que iniciei a leitura lúdica nos quadrinhos infantis. Eu ainda não compreendia
as palavras, mas entendia as histórias, lendo as gravuras. Vez por outra, meus
irmãos apareciam com um gibizinho trocado ou emprestado de alguém. Às vezes,
recusavam-se a me emprestar; então eu tinha que ler escondidinha, correndo
grandes riscos de ser flagrada. Isso era uma aventura muito grande porque eu
era medrosa e não gostava me meter em intrigas. Quando
o flagra acontecia, a confusão era tremenda. Guardo com carinho as lembranças
de minhas primeiras leituras. Muitos livros infantis não tive o privilégio de
ler durante a infância, mas jamais deixei de ler livros infantis porque deixei
de ser criança. “O Pequeno Príncipe”, li na adolescência, um amigo me emprestou
e “Pollyana”, na fase adulta, visto que duas amigas insistiram para que eu
lesse. Adorei! Entre tantos livros lidos na infância, cito dois, como sendo
inesquecíveis: “O Patinho Feio”, de Hans Andersen, e “A Ilha perdida”, de Maria
José Dupré.
Trecho de Obras
Para onde vai a criança que fomos um dia?
Por acaso se perde no tempo?... morre?... se vai?... – Não. Está dentro de nós, até o fim de nossos dias.
Margarete Solange
Do livro O Silêncio das Lembranças
Queima-Bucha, 2011,p.84..
Ilustração: Jorge Davi
Ilustração: Jorge Davi
Dois Lados
poesia
de Margarete Solange
Nenhum ser humano é perfeito para ser considerado tão somente bom. Assim todos nós temos dois lados. Com os amigos o bom e o belo tende a prevalecer. Os amigos nos fazem melhor, melhoramos nossos amigos. Na convivência mostramos o lado que gostaríamos de não ter.
Denunciamos
nossas imperfeições. Quando nos aproximamos, percebemos que os outros não são
perfeitos também, o dia a dia que se derrama desastrado sobre nós modifica
nossa face de bondade e de beleza. Somos divinos quando amamos e perdoamos,
Somos humanos quando reconhecemos nossa grande capacidade de errar
Fotografia de Margleice Pimenta
Inventor de Poesia:
Queima-bucha,
2010, p 143.
Na Vida e na Morte
conto de Margarete Solange
Todos têm ciência de que
velório é um ambiente sério. Aliás, seriíssimo. A família, tremendamente
abalada, fica assim como quem sonha. É de cortar o coração quando os vemos contemplando,
incrédulos, o corpo inerte de um ente querido. Até quem não é da família se
emociona, e chora. Alguns até exageram na hora de mostrar compaixão. Sim, porque,
às vezes, nem conhecem o morto; mesmo assim, choram copiosamente e, às vezes,
até passam mal.
Bartolo
tinha sessenta anos quando morreu. Possuía um coração generoso. Adorava estar
entre os amigos, divertindo-se, contando e ouvindo piadas. Rir é um excelente remédio,
dizia ele, para qualquer tipo de doença, e em especial para evitar a depressão.
Era repentista dos bons. Gostava de festas e evitava se apresentar em enterros. Dizem
que era porque temia não saber se comportar. Era do tipo que falava alto e
gargalhava à toa.
Não o
conheci pessoalmente, porém sabia muito sobre ele, porque Bárbara, minha amiga,
tratava de me contar tudo que o velhote engraçado aprontava. Dizia-me que o tal
Bartolo era incrível. Fazia caras engraçadíssimas e dava risadas extravagantes,
daquelas que ficam ecoando nos ouvidos por um longo tempo. As pessoas riam só
de ouvir-lhe as gargalhadas.
Alguns
o achavam muito parecido com o personagem Frankenstein, por causa do rosto
completamente marcado pelas cicatrizes que adquiriu num acidente do qual foi
vítima quando era ainda jovem. Ele, com muito senso de humor, tirava proveito
de sua feiura: ser parecido com Frankenstein era, para ele, uma grande honra.
Desejei
muito conhecê-lo. Eu e Bárbara fazíamos planos para irmos juntas passar um
final de semana na casa de praia de Bartolo. Ela já tinha ido várias vezes,
porém, para mim, as oportunidades foram passando, até que, por fim, minha amiga
trouxe-me a triste notícia de que ele havia falecido.
Era uma
segunda-feira. Tínhamos combinado de nos encontrar na biblioteca às sete da
noite. Estava em nosso cantinho favorito, que era em uma mesa que ficava junto
da janela de vidro, de onde podíamos contemplar algumas árvores lá fora. Essa
visão dava-nos uma sensação de paz e tranquilidade.
Quando
cheguei ao nosso cantinho, percebi que já estava ocupado por um devorador de
livros. Pedi licença e sentei-me. Pensei comigo mesma: “Se o ‘intelectual’ se
sentir incomodado, então, que se retire.”
Algum
tempo depois, Bárbara surge, vindo em minha direção. Sentou-se já se segurando
para não rir. Tinha que se comportar decentemente, afinal, além de estarmos
numa biblioteca, tínhamos companhia em nossa mesinha.
– Quem
é esse ocludão? – perguntou-me baixinho,
referindo-se ao rapaz que lia sentado do outro lado da mesa. Era míope,
coitado! Por isso usava uns óculos meio grandes de lentes bem grossas.
– Não
sei. Já estava aí quando cheguei.
– Tenho
uma pra te contar... – continuou falando baixinho.
– Então
conta logo...
–
Quando a gente sair daqui eu conto... Aqui não dá, senão vou rir... Quase morri
de rir ontem à noite... Lembra de Bartolo?
–
Bartolo?
–
Frank, o repentista...
– Sim.
–
Morreu! – desatou a rir, e eu também. O cara que dividia a mesa conosco
levantou o livro de maneira que não pudéssemos ver seu rosto.
–
Morreu de quê?
– Foi
um enfarto fulminante... – não conseguia estancar o riso. – Depois eu conto –
tapou a boca com uma das mãos.
Olhei
para o rapaz à nossa frente. Ele ainda escondia o rosto atrás do livrão que
tentava ler. Voltei-me para Bárbara, que estava vermelha de tanto rir. Achei
que se tratava de mais uma de suas gracinhas, e estava ansiosa para saber o que
tinha para me contar.
– Vai.
Conta logo essa sua piadinha.
– Não é
piada não... Quando lhe contar, você vai entender por que estou rindo.
– Então
conta logo... – sussurrei.
– Aqui
não, senão vai atrapalhar o rapaz que está estudando... – disse elevando a voz
com o propósito de chamar a atenção do “ocludão".
– Por
mim, tudo bem – apressou-se em falar o estudante – estou somente preenchendo o
tempo, não tenho mais aula... Moro no interior e meu ônibus só sai às dez e
vinte.
– Então
tá. Vou tentar falar baixinho... Que curso você faz?
–
Ciência da Computação. E vocês?
–
Direito... Dá pra acreditar? – nem esperou resposta, voltou-se em minha direção
e começou a falar.
Rapidamente
esqueceu-se de que prometera falar baixo e prosseguiu contando-me detalhadamente
tudo que viu e ouviu durante o velório de Bartolo.
Logo
que recebeu a notícia, ficou tremendamente abalada. Queria chorar, mas não
conseguia. O pranto estava preso, e isso lhe fazia um mal terrível.
Eram
oito horas da noite do domingo quando lhe disseram que o corpo havia chegado.
Saiu de casa levando a sobrinha de quatorze anos em sua companhia. Precisava
ver para poder crer que Bartolo realmente havia morrido. Era inacreditável, afinal,
ele nunca se queixava de doença alguma.
Era
difícil imaginar Bartolo bem comportado, sem fazer nenhuma palhaçada. Ele
jamais ficava quieto. Até dormindo era espalhafatoso: dava pernadas, falava,
roncava alto e fazia outras coisas mais. Aquelas coisas que as mulheres não
comentam para não perder a elegância.
Bárbara
tinha esperanças de que tudo não passava de um terrível engano.
O velório aconteceu na própria residência de Bartolo. Não
se sabe ao certo o motivo, mas dizem que a viúva não permitiu, de modo algum,
que levassem o corpo para ser velado em outro lugar.
O pátio em volta da casa estava cheio de pessoas. Bartolo
era muito querido, tinha muitos amigos. Bárbara acenou para alguns conhecidos e
prosseguiu em direção à entrada da residência. A sala principal, grande e
espaçosa, tornara-se pequena para abrigar a multidão que queria chegar perto do
morto.
Vendo que havia muita gente em volta do esquife, a sobrinha
de Bárbara desistiu de entrar e acomodou-se na varanda. Minha amiga, com paciência
exemplar, conseguiu chegar perto do defunto. Disse que Bartolo nem parecia
estar morto, tampouco dormindo. Parecia um ator representando numa péssima atuação.
Os olhos estavam entreabertos, ao passo que os lábios ameaçavam rir a qualquer
momento.
Repentinamente, surgiram rumores de que o morto poderia
estar vivo. Alguém disse que o viu respirar. Uma senhora comentou baixinho que
o sorriso se abrira um pouco mais. Os familiares recusavam-se a ouvir esse tipo
de comentário, não queriam alimentar falsas esperanças. Certamente gostariam
que o querido Bartolo estivesse vivo, porém, embora o socorro tivesse sido
imediato, os médicos nada puderam fazer por ele. O enfarto fora fulminante. Tinham
que se conformar com aquela fatalidade.
Minha amiga pôs-se a observá-lo com cuidado. Queria
conferir, por si mesma, se aqueles rumores tinham algum fundamento. Sentiu-se
na obrigação de salvar Bartolo, caso ainda houvesse alguma esperança. Vez por
outra, lembrava-se das piadas que ele contava e, então, segurava-se para não
dar risadas. Se olhasse para a cara dele, então, aí era que a vontade de rir aumentava.
Colocava a mão sobre a boca e fingia chorar. Não chorava de verdade, porque não
conseguia. Essa tensão estava provocando um terrível cansaço nas pernas e uma
tremenda dor de cabeça.
Ela corria os olhos pelo recinto, alguns cochichavam. As
poucas pessoas que choravam cobriam o rosto com um lenço ou com as mãos. Isso
fazia Bárbara suspeitar que estavam lembrando das piadas de Bartolo e fingiam
chorar para abafar o riso.
Fazia muito calor por causa da multidão e das velas que
queimavam em derredor do defunto.
Deveriam ser umas dez ou dez e meia quando surgiu na sala
uma moça que, segundo Bárbara, deveria ter uns vinte e quatro anos. Estava
elegantemente vestida de preto e era um tipo bastante atraente. Os olhos
denunciavam que já havia chorado bastante. Todos os olhares se dirigiram para
ela. Imaginando ser alguém da família, as pessoas recuaram, abrindo o caminho
para que ela pudesse se aproximar do esquife. Logo que pôs os olhos sobre o
morto, deu um soluço sentido, e tombou no chão.
Um rapaz que correu para acudi-la derrubou a tampa do
caixão, e o barulho das duas quedas causou um grande rebuliço. Minha amiga
Bárbara, para não ser pisoteada por aqueles que desajeitadamente queriam sair
da sala, esquivou-se na parede e, com isso, pressionou o interruptor, fazendo
as luzes se apagarem.
A confusão foi geral. Do lado de fora alguém gritou:
– O morto ressuscitou! O morto ressuscitou!
Quem estava dentro queria sair por medo do escuro, quem
estava do lado de fora queria entrar para ver Bartolo ressurreto.
Uma voz feminina gritou:
– Rápido, gente, tira ele do caixão para ele não ficar
traumatizado...
A sobrinha de Bárbara disse que uma senhora, que não
conseguia entrar por causa dos que se acotovelavam tentando sair, perguntava
com voz bastante emocionada:
– Ele está sentado? Ele está sentado? Como é que ele está?
Ao seu lado a filha, puxando-lhe o braço, repetia:
– Foi pilepsia,
mainha, foi pilepsia.
Bárbara teve um ataque de riso. Começou a gargalhar bem
alto, e isso fez o povo ficar mais apavorado ainda. Alguém saiu da sala gritando:
– A moça que desmaiou ficou louca e está rindo sem parar.
Um dos presentes, percebendo que somente a sala do velório
estava escura, alcançou o interruptor e acendeu as luzes. Minha amiga, então,
teve que segurar o riso e fingir que chorava.
A confusão continuou. Crianças choravam, pessoas corriam,
objetos caíam.
Foi aí que uma juíza aposentada, amiga da família, resolveu
tentar pôr ordem no recinto. Bateu as mãos para chamar a atenção do povo. O
tumulto cessou imediatamente.
– Calma pessoal. Respeitem o morto!
Quando viu que o povo a ouvia com atenção, empolgou-se e
fez a maior pose de político que discursa para seus eleitores. A dentadura
frouxa da velhota ameaçou cair, mesmo assim continuou falando. A dentadura despencou.
Com gesto rápido, a juíza estendeu a mão para agarrá-la, antes que caísse dentro
do caixão de Bartolo.
A crise de riso voltou. Então, Bárbara simulou um tropeção
e apagou novamente as luzes para que as pessoas não percebessem que era ela a
dona das risadas extravagantes. Assim
que o tumulto voltou, acendeu a luz e correu em direção ao banheiro. Riu até
que o riso deu lugar ao pranto. Ficou com a barriga completamente dolorida de
tanto rir.
A juíza conseguiu novamente acalmar a multidão. Se a
dentadura tentou escapar novamente de sua boca, Bárbara não soube dizer, porque
estava trancada no banheiro, chorando após uma tremenda crise de riso.
Um longo tempo depois, saiu do seu esconderijo e seguiu
em direção à cozinha, a fim de beber um pouco de água. Em cada canto da casa
havia grupinhos cochichando, até sobre o que não tinha acontecido.
Todos queriam saber quem era a bela moça que havia
desmaiado ao contemplar o rosto do defunto. Uns aos outros perguntavam, porém
nenhum dos presentes a conhecia. Surgiram muitos palpites acerca de sua
identidade. Todavia, a certeza ninguém jamais terá, visto que, quando tudo se
aquietou, a jovem misteriosa e o rapaz que a socorreu tinham desaparecido.
Por causa dessa tão grande confusão, a família ficou ainda
mais fragilizada.
– Quem já se viu bagunçarem um velório dessa maneira? –
desabafou a viúva entre soluços.
De volta à sala onde o morto jazia, deu uma paradinha em
frente ao esquife para dar o último adeus ao amigo. Ele estava tranquilo, com o
mesmo sorriso debochado nos lábios. Parecia o mesmo Bartolo de sempre. Bárbara
esboçou um leve sorriso e acenou discretamente para ele, como se quisesse dizer
“Tchau, Frank, seu velório foi muito divertido”...
Pois é, esta é a história que minha amiga me contou. Depois
disso, ela resolveu levar muito a sério a filosofia de vida defendida por
Bartolo. Acostumou-se a dizer que rir é um excelente remédio, e transforma tudo
em comédia.
Semana passada, estávamos novamente na biblioteca.
Enquanto eu terminava uma pesquisa, ela, muito concentrada, lia um jornal. De
repente, encerrou a leitura e dirigiu-me a palavra com cara de surpresa e
pesar:
– Não dá pra acreditar... Estou chocada... João Patrício
morreu... que coisa horrível... seu fusquinha foi completamente esmagado por
uma carreta...
– João Patrício?... Quem é esse tal de João Patrício? – indaguei
curiosa.
– Sei lá. Só sei que estou chocada com a morte dele. Por
quê? Não posso? – deixou escapar uma sonora gargalhada.
Pretendia dar-lhe
uma bronca, não consegui. Só de olhar para a cara dela eu desatava a rir.
As
pessoas que estavam na biblioteca nos olhavam com ar de reprovação, o que
aumentava ainda mais nossa vontade de rir. Tentando nos comportar, evitávamos
olhar uma para outra. Nesse instante, surge Garibalde, o “ocludão, aquele que
dividiu conosco a mesa no dia em
que Bárbara me
contou sobre a morte de Bartolo. Pois é, fizemos amizade com ele e descobrimos,
naquela mesma noite, que ele também é metido a engraçadinho. Aproximou-se de
nossa mesa e, com cara de comediante, perguntou:
– E aí,
estão rindo por quê, morreu mais alguém?
Fonte: Margarete Solange.
Ninguém é Feliz sem Problemas.
Fundação Vingt-un Rosado,
2009, p. 13-19
2009, p. 13-19
Fundação Mossoroense
Filhos da Pobreza
conto de Margarete Solange
1984.
Estava indo fazer uma reportagem numa cidadezinha chamada João Câmara, mais
conhecida pelos moradores do lugar como “Baixa Verde”. Eu iria acompanhada de
um fotógrafo que era novato em nosso jornal. Além de atrapalhado, o cara tinha
o costume de não ser pontual. Assim sendo, para evitar esperá-lo além do
previsto, eu costumava ir pegá-lo na casa dele. Parei o carro em frente ao
prédio e buzinei insistentemente, dando demonstração de pressa. Algum tempo depois,
o bonitão surgiu com a mãe a tiracolo, ajeitando o filhinho aqui e ali, me
fazendo lembrar uma gata que lambe os seus filhotes.
–
Vamos, Léo! – gritei para apressá-lo.
Quando
o meu companheiro de trabalho preparava-se para entrar no carro, surgiu ao seu
lado uma mocinha meio acanhada. Ela usava um vestido de tecido barato e muito
florido, o que me fez imediatamente concluir a sua origem.
Trocou
umas poucas palavras com Léo e entregou-lhe uma certa quantia em dinheiro, que
hoje deveria corresponder a dez reais.
– Quê
que ela queria, Léo? – indaguei curiosa.
– Pediu
que eu entregasse esse dinheiro à mãe dela... lá no interior para onde estamos
indo... Ela é de lá, daquelas bandas.
Mudamos
de assunto, conversamos, rimos, cantamos, até que, por fim, chegamos à cidadezinha.
Fizemos nossa reportagem e, quando achei que só nos restava pegar a estrada de
volta, Léo me lembrou de que precisava entregar o dinheiro que a mocinha
enviara para seus pais. Perguntou na feira por seu Zé Felinto, marido de dona
Nova e pai de Marlene, e ficou sabendo que eles moravam um pouco mais afastado
da cidade, num lugar chamado “Arisco do Sotero”.
– A fia
casada dele mora naquela casa róseo... – anunciou o vendedor, que
foi interrompido pela mulher do lado, para dizer que nem entregasse a encomenda
porque ela não falava com o pai.
Léo
perguntou se o lugar era distante e, como disseram que não, ele decidiu que iríamos
até lá. Queria ter certeza de que a encomenda chegaria com segurança ao seu
destino.
Eu
estava a ponto de lançar-lhe, em rosto, todo o meu desagrado. Achava que tinha
motivos de sobra para fazê-lo; afinal de contas, já havia aguardado,
pacientemente, dentro do carro, enquanto Léo desfilava seu charme pela feira,
comprando as novidades do lugar para levar para sua querida mamãezinha. Era
pamonha, feijão verde, beiju, grude e nem lembro mais o quê, embalados carinhosamente
para viagem.
Decidi
não reclamar a decisão do meu companheiro. Com minhas implicâncias, eu iria,
tão somente, impedir aquele filho exemplar de realizar mais uma de suas boas
ações. Mas não posso deixar de confessar que esse seu jeito bondoso e mimado de
ser era motivo para eu fazer chacotas com ele, principalmente nos momentos em que estávamos reunidos com os
outros colegas na redação do jornal onde trabalhamos.
Depois de penarmos
bastante procurando a morada do tal Zé Felinto, nos aproximamos da casa de
taipa indicada por um homem que seguia com sua enxada sobre o ombro. Ao ouvir o
ruído do carro, todos da casa saíram à porta, como que aguardando nossa chegada.
Os filhos menores agarravam-se à saia da mãe, de modo que ficavam quase que
totalmente escondidos por trás dela.
Descemos do carro.
Leonardo apresentou-se dizendo que vinha da parte de Marlene, a moça que
trabalhava num dos apartamentos do condomínio onde morava. Ao pronunciar esse
nome, a mulher pareceu engasgar-se com as palavras que queria pronunciar. Com
voz embolada e emocionada, ela disse:
– Diga a ela que fique
por lá.
Eu, curiosa de
nascença e acostumada a fazer perguntas, graças à minha profissão, sentei-me
num tamborete vazio próximo à porta e quis saber o porquê desse recado. Aqui e
ali precisava pedir que a mulher repetisse o que dizia, porque falava rápido,
olhando para o chão da casa, que era da mesma areia que havia no pátio em derredor.
A mulher, de rosto sofrido, cuja idade não sei nem precisar,
sempre com os pequenos escondendo-se atrás dela, disse-nos que não queria que a
filha voltasse, porque a coisa estava cada dia pior. Arranjar comida já estava
difícil até para os que ficaram. Se Marlene voltasse, seria uma boca a mais para
dar de comer. Os filhos homens, que ficavam rapazes, fugiam de casa por causa
da brutalidade do pai. Faziam falta no roçado para plantar e colher, mas era
melhor assim. Largavam-se no meio do mundo, para tentar a sorte noutro lugar.
Quando ela disse que nem sempre tinham o que comer, eu perguntei
o que fazia com aquele monte de filhos pequenos. Nem lembro quantos, sei que
eram muitos, creio que um filho por ano era a sua média. E quando comentei
sobre isso, ela sorriu, e disse-me com voz cantada, penso que se orgulhando do
fato:
– Fora cinco qui morreru... e os mai véio qui foru
imbora... tudo era dizenovi.
Queria
que trouxéssemos uma garotinha de uns catorze ou quinze anos para que, como
Marlene, pudesse arranjar um emprego em casa de família. Mas a mocinha, embora
fosse uma das menos assustadas, recusou-se a nos acompanhar. Cada vez que a mãe
falava no assunto e insistia para que nos acompanhasse, ela, quando não ficava
calada, sacudia a cabeça em sinal de negação.
Eu fiz muitas perguntas e dona Nova me respondeu, de bom
grado, tudo o que quis saber. As meninas mais velhas vez por outra nos
encaravam admiradas de nossas roupas e tênis; os meninos não tiravam os olhos
do boné de Leonardo; mas, se fôssemos nós que resolvêssemos fitá-los com
insistência, eles baixavam a cabeça e escondiam-se, uns atrás dos outros, encabulados.
Respondendo à minha pergunta, dona Nova disse que, nos dias
em que não têm nada para comer, todos se sentam no chão da sala e ficam, assim,
sentados sobre a areia o dia inteiro, sem fazer nada.
– Ficam conversando? – perguntei interrompendo sua fala, ao
que ela me respondeu:
– Nóis num tem o qui cunversá não, moça... nóis
fica caladu mermo, isquecenu a fome...
Olhei para Léo neste momento e senti que ele reprimia o
choro. Eu tentava fazer o mesmo, quis até ficar calada para a voz não me trair;
contudo, como era minha vez de falar, ficar calada seria pior. Decidi, então,
continuar a conversa, mesmo com voz trôpega.
– E as crianças?
– Fica queta junto de nóis, tá tudo acostumado
já, a fome aqui num é nuvidade não...
– Sim!... Sua filha Marlene
mandou umas coisas para senhora... – disse Léo saindo apressado em direção ao
carro.
A meninada o seguiu curiosa, todavia mantendo sempre uma
distância defensiva. Pareciam uns bichinhos assustados, pés descalços, cabelos
aloirados em desalinho e marcas de feridas nas pernas.
O meu companheiro retornou com a sacola cheia das novidades
que comprara para sua mãe e a entregou à mulher. Achei o seu gesto louvável. Em
seguida, tirou do bolso uma parte do seu salário e lhe entregou também, dizendo
que Marlene tinha enviado. Dona Nova recebeu de cabeça baixa e proferiu uma bênção
para nós e para sua filha.
Neste
instante, os filhos, sentindo o cheiro de comida, começaram a puxar a saia da
mãe, dizendo que estavam com fome. Eu aproveitei o alvoroço para,
discretamente, espalhar, com as pontas dos dedos, as lágrimas teimosas que
escapavam de meus olhos.
A mãe, nenhuma resposta dava aos filhos que lhe puxavam a
saia e repetiam que estavam com fome. Ela fazia gestos de reprovação e
voltava-se para nós, esperando que fizéssemos mais alguma pergunta. Se não
introduzíssemos a conversa, ela nada dizia.
Sem nem ao menos contar o dinheiro que Leonardo lhe
entregara, mandou que a menina mais velha o colocasse embaixo de um rádio
grande e antigo que havia sobre uma mesinha no canto da sala, único móvel que
havia além dos poucos tamboretes. Percebi que faltavam uns botões no rádio e,
por curiosidade, perguntei se ele conseguia pegar as estações de minha cidade.
Queria tão somente confirmar as minhas suspeitas: o velho rádio era somente uma
peça de enfeite, um dos poucos pertences daqueles filhos da pobreza.
Decidimos partir. Leonardo assumiu o volante, e eu, ao seu
lado, volvia-me de vez em quando para olhar a trás, a fim de contemplar a
mulher e os seus filhos em frente à baixa casinha de taipa. Até onde pude
vê-los, estavam lá parados, junto à porta, olhando em nossa direção.
Os rostos deles ficaram gravados em minha mente, ao longo
dos anos: olhos que não choravam, lábios que não sorriam.
Fonte:
Margarete Solange.
Ninguém é
Feliz sem Problemas.
Fundação
Vingt-un Rosado,
2009, p.
38-42.
Obra premiada no concurso literário
escritor Norte-riograndense: Projeto
Rota Batida III. Fundação
Mossoroense
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