O homem pode não ser rico, mas se ele tiver na bagagem a leitura será mais que isso: será sábio. A sabedoria, sem dúvida, é grandiosa, é tudo na vida, não na morte. Na morte, todos os homens são igualmente leigos.

Margarete Solange. Contos Reunidos, p. 98

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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Uma máxima


Toda pessoa que já provou do amor incondicional de um cachorro, sente falta de tal devoção em seu dia a dia, até mesmo por parte daqueles que costumeiramente são considerados melhores amigos.

Margarete Solange

do livro Contos Reunidos,
Sarau das Letras,2014, p. 190
Foto de Felipe Galdino

sábado, 19 de setembro de 2015

Fazenda Solidão, 2ª edição

SINOPSE 

A velha casa construída pelos antepassados do escritor fica isolada num alto depois da Curva da Morte. Na Fazenda Solidão a paisagem é fascinante, um lugar cheio de encantos naturais que inspiram Rodrigo a escrever romances e poesias. Sua vida está plantada como profundas raízes no chão do lugar; no entanto, por causa das muitas dívidas contraídas pelo irmão mais moço, a propriedade terá que ser vendida. Elizabeth, herdeira das terras vizinhas, propõe comprar a fazenda, porém impõe uma condição que Rodrigo a princípio não quer aceitar.


TRECHO DA OBRA

Um pequeno pássaro pousou sobre a parede da janela que abria para o pátio da frente da modesta casa do escritor. A avezinha movia a cabeça de um lado para o outro e piscava os seus olhinhos redondos. Instantes depois, voou atravessando o aposento em direção à janela de onde podia ser visto o nascer do sol. Desviou rapidamente o seu curso inclinando uma das asas para baixo, sobrevoou a mesinha sobre a qual estavam alguns papéis e a máquina de escrever e se foi, saindo pela janela de onde se podia observar, durante o dia ou em noites de lua cheia, a cancela da fazenda. Embora essa fosse uma cena corriqueira, Rodrigo acompanhou atenciosamente a trajetória do visitante alado. Um poeta busca enxergar a beleza das pequenas coisas.

SOBRE A AUTORA 

Nascida em Natal, Margarete Solange, escritora e professora, escreve em verso e prosa. Apaixonada pela leitura desde a infância e dotada de capacidade criadora, principiou na adolescência a escrever poesias, crônicas e peças teatrais. Autora de dez obras publicadas, recebeu premiação em concurso literário, na categoria contos, pela obra Ninguém é Feliz sem Problemas (2009) e pelo conto A intrusa (2014).

sábado, 16 de maio de 2015

Santa Fé x São Bernardo

Texto de Vitória Lima

Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. A arte é sangue, é carne. Além disso, não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos.”  
                                          Graciliano Ramos

Com esta citação, Margarete Solange Moraes, escritora de Natal, RN, dá início ao seu romance “Santa Fé” (Mossoró, RN: Sarau das Letra, 2014).
A admiração da escritora pelo autor alagoano vai se delineando aos poucos na narrativa, a partir dos títulos das obras. Ambos os romances (“Santa Fé” e “São Bernardo”) referem-se às propriedades rurais nas quais se desenrolam as respectivas ações. No romance de Margarete Solange temos como protagonistas a professorinha Jaqueline e o dono de terras Seu Ricardo, que em muito se assemelham aos protagonistas de Graciliano Ramos em “São Bernardo”: a professora Madalena e o também dono de terras Paulo Honório. Os conflitos desenvolvidos pela trama, a luta pelo poder dentro da relação, são claramente delineados tendo o romance de Graciliano no background. Esta comparação é mesmo explícita e muitas vezes “São Bernardo” é citado pelos protagonistas de Margarete Solange. Seu Ricardo, como Paulo Honório, é um homem autoritário, sisudo, de barba fechada, mãos ásperas e segue à risca o modelo do “Byronic hero”, o herói bairônico, que tem como inspiração o herói Heathcliff, protagonista do romance “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë. Aliás, este modelo de homem rude ainda hoje exerce grande atração sobre a imaginação feminina, haja visto um personagem recente, o Capitão Herculano da novela “Cordel Encantado” da Rede Globo, que tanto impressionou o público feminino.
Mas a autora Margarete Solange faz questão de atualizar sua trama e questiona o desfecho dos romances vitorianos, ou mesmo de alguns mais modernos, mais desconectados com a revolução das mulheres. Em trecho metalinguístico, perto do desfecho da sua obra, ela diz:

Nada acontece num romance sem que o autor consinta [...] Sei que se ela (a sua própria narrativa) fosse escrita por um romancista de outros tempos, ele certamente incluiria os capítulos finais narrado a morte do personagem principal [...] Vendo por outro lado, seria até interessante que, nas narrativas atuais, o homem saísse de cena para que o destaque ficasse com a mulher. Esse desfecho seria assim como que um retrato de minha época: a mulher ganhando espaço, superando a fragilidade, mostrando ser capaz de liderar, firmando-se nos próprios alicerces, sem ser necessariamente amparada pelo braço masculino. Noutros tempos, quase sempre era a heroína quem morria no final da história. (Santa Fé, pp. 157-158).

Embora muito se questione ainda hoje a relevância da questão da autoria feminina versus a masculina, considero que nos dois romances em questão a autoria e a escolha dos respectivos narradores determinam o desfecho da trama. Em “São Bernardo”, o personagem Paulo Honório é também o narrador da sua própria história:

Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo tem-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor.  (São Bernardo, Rio: Record, 1979, p. 12).

Em “Santa Fé”, a narradora é a própria protagonista, Jaqueline, uma jovem de 25 anos, em busca de sua realização pessoal e profissional. A autora não tenta esconder as fraquezas de sua heroína/narradora, apresentando-a, às vezes, como uma pessoa calculista e, como ela mesmo se define, “esperta”. Muito diferente da indefesa Madalena de Graciliano. Esta “esperteza” a impede de cair em depressão ou entregar-se ao desânimo quando vê seus planos caírem por terra. Pelo contrário, aos poucos ela vai conquistando os corações mais empedernidos que a cercam e mesmo o seu selvagem marido termina sendo “domado”. Ela consegue aplacar o seu ciúme (lembro aqui que Seu Ricardo, como Paulo Honório, é um homem rude, mais velho e, às vezes, sente-se diminuído perante a mulher, mais jovem e instruída, com um diploma de professora  e,  por isso mesmo, com um melhor domínio das palavras). A aparência pouco cuidada dos dois personagens masculinas contribui para que se sintam inseguros quanto ao amor de suas esposas, mais jovens, educadas, delicadas, cultivadas. É interessante observar também a ênfase que os dois autores põem sobre as mãos desses personagens: ásperas, calejadas pelo trabalho no campo. No caso de Paulo Honório, grandes e cabeludas, o que as torna até um pouco assustadoras: mãos de ogro. Mas o parágrafo final de “Santa Fé” não deixa dúvidas quanto ao acordo celebrado pelo casal, que consegue superar as diferenças e viver em harmonia. E é também interessante observar que a mulher passa a cuidar das mãos do marido com cremes e massagens, uma atitude simbólica que a ajuda a conquistar-lhe a confiança. O pragmatismo e o interesse, que tinham antes aproximado Jaqueline e Seu Ricardo, transformam-se em afeto verdadeiro, em confiança mútua:

A partir de então, procurei passar mais tempo ao lado do meu marido. Ele aproveitava para me ensinar a administrar todos os negócios que mantinha nos limites da fazenda Santa Fé.  (Santa Fé, 2014, p.162).

A chave de tudo está na escolha dos narradores, no ponto de vista adotado por cada escritor: Margarete Solange, escritora contemporânea que se identifica com as questões relativas à luta das mulheres, escolhe uma figura feminina que melhor se aproxima de suas simpatias, como narradora. Já Graciliano, um nordestino às antigas, elegeu como narrador um homem, que bem representa os homens rudes e secos com quem conviveu no Nordeste alagoano.  





Vitória Lima,
Escritora Brasileira: 
Poetisa e Professora de Inglês e Literatura.
Autora de Anos Bissextos (1997)
 e Fúcsia (2007).
O texto Santa Fé x São Bernardo
está publicado no Jornal "A UNIÃO"
2º Caderno - Vivências
João Pessoa, Paraíba, 2015
 Quarta-feira, 1 de abril, página 6.
http://issuu.com/auniao/docs/jornal_em_pdf_01-04-15

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Escritora Margarete Solange: trechos de obras



Esse medo que temos de tentar e fracassar muitas vezes nos derrota. Somos capazes, Mas ele diz que não somos, e preferimos acreditar nele, duvidando de nós mesmos. (Trecho do Romance O Velho e a Menina, p 135).
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É natural do ser humano querer ser admirado por seus feitos, e ser considerado grande mesmo na sua pequenez. E para ser grande é preciso perseguir os ideais até alcançá-los, ou morrer lutando sem desistir jamais da batalha. (Trecho do romance O Velho e a Menina, p 120).
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A leitura é o princípio e o meio, a morte é fim. (Trecho do conto CRIANÇAS, em Contos reunidos, p 98).
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Imagino que toda pessoa que já provou do amor incondicional de um cachorro, sente falta de tal devoção em seu dia a dia, até mesmo por parte daqueles que costumeiramente são considerados melhores amigos. (Trecho do conto UMA QUESTÃO DELICADA Contos reunidos, p 190).
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O homem pode não ser rico, mas se ele tiver na bagagem a leitura, será mais que isso: será sábio. A sabedoria, sem dúvida, é grandiosa, é tudo na vida, não na morte. Na morte, todos os homens são igualmente leigos.  (Trecho do conto CRIANÇAS, em Contos reunidos, p 98)

Nós, mulheres de todas as profissões, temos ganhado mais espaço. Não temos a força bruta dos homens e, se assim fosse, isso só aumentaria a violência no mundo; no entanto, temos muita coragem, ousadia e vontade de vencer e isso, sem dúvida, remove muito mais obstáculos que os músculos. (Trecho  do romance O silêncio das lembranças, p. 13).
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Para onde vai a criança que fomos um dia? Por acaso se perde no tempo?... morre?... se vai?... – Não. Está dentro de nós, até o fim de nossos dias. (Trecho do romance O Silêncio das lembranças, p. 84).
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O leitor apaixonado se abestalha quando lê um livro; ri, chora, reclama... Conversa com o autor em voz alta, critica, elogia, intromete-se, dando opinião, por fim, abraça o livro com saudade logo que a história termina. Isso é lindo! Se você é assim, sinta-se homenageado. Mas veja só: esse tipo de abestalhamento não tem cura não. E mais que isso: é contagioso e é contagiante. (Trecho do conto O ENCONTRO DE DOIS CONTOS, em Contos Reunidos, p 133).
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Toda mulher, seja mãe ou tia, precisa de mimos e de um tempinho de folga para cuidar de si. Quando estão felizes, elas conseguem ser pessoas meigas, como no íntimo elas realmente o são.  (Trecho do conto: UMA QUESTÂO DELICADA; em Contos Reunidos, p 190).
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Um poeta busca enxergar a beleza das pequenas coisas. (trecho do romance Fazenda Solidão).
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A leitura é para mim uma companheira inseparável. Quando leio, converso com os livros, concordo ou discordo dos autores, às vezes choro ou dou boas gargalhadas. (Trecho do conto CRIANÇAS, em Contos Reunidos, p 98).
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A verdade é que o significado das palavras por vezes tem traduções diferentes, dependendo do querer de algumas pessoas. (Trecho do romance Santa Fé, p. 31)
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Existe sempre algum dono disposto a vender por bom preço aquilo que tem. (Trecho do romance Santa Fé, p. 32)
 .
Nos limites da imaginação e da mão daquele que cria, tudo se aproveita, nada se extravia. Na vida e na morte, no riso e no pranto, com uma pitada de sal, aumentos e descontos, temperam-se os pontos que se transformam em contos. Tudo se recria: fatos reais, sobrenaturais, o enredo que se lê e o incidente que se conta; o provável e o possível. Aquilo que foi ou mesmo coisa que jamais aconteceu convencem como verdades, especialmente se narrados pelo “eu”. Seja felicidade, tédio ou amargura, para um escritor, nada se perde, tudo se transforma em literatura. 
(Trechos do conto INVENTOR DE CONTOS, em Contos Reunidos, p. 61).
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Os leitores me fazem prosseguir e acreditar que, mesmo não sendo devidamente remunerada nesse meu ofício, escrever não é coisa de quem não tem o que fazer, e que ser escritor é uma profissão admirável.
Ao longo dos anos, a voz dos que leem as minhas obras tem sido peça chave em minha carreira. E, como para mim o leitor importa, e muito, é para ele, e por causa dele que escrevo e aprecio por demais saber que a leitura de meus textos suscita, em alguns, ora gargalhadas, ora lágrimas. E isso não tem preço. 
         Cada um daqueles que entra em meu mundo literário, e vive as histórias que crio e se diverte com meus personagens e ama até mesmo os fantoches exóticos que invento para camuflar a timidez, merece o meu carinho, a minha homenagem. Portanto, queridos leitores, meus amores e minhas amoras, a vocês dedico os meus escritos e deixo-vos a minha herança em palavras. 
 (Trecho do posfácio, em O Velho e a Menina, p. 141)




terça-feira, 11 de novembro de 2014

Um dos Malfeitores

Às vezes, convivemos com ladrões e não lhes conhecemos as verdadeiras faces, porque estes, além de nos roubar, nos enganam. Neles confiamos por não saber que eles, mesmo não portando armas, nos roubam ainda mais do que aqueles que fazem desse ofício uma profissão.




Margarete Solange
Contos Reunidos 
Sarau das Letras, 
2014,  p.162
Trecho do conto
Um dos Malfeitores, 
Fotografia de
 Felipe Galdino

domingo, 14 de setembro de 2014

Nada se perde,

Nos limites da imaginação e da mão daquele que cria, tudo se aproveita, nada se extravia. Na vida e na morte, no riso e no pranto, com uma pitada de sal, aumentos e descontos, temperam-se os pontos que se transformam em contos. Tudo se recria: fatos reais, sobrenaturais, o enredo que se lê e o incidente que se conta; o provável e o possível. Aquilo que foi ou mesmo coisa que jamais aconteceu convencem como verdades, especialmente se narrados pelo “eu”. Seja felicidade, tédio ou amargura, para um escritor, nada se perde, tudo se transforma em literatura. 

Margarete Solange 



Fonte: Margarete Solange, 
Contos Reunidos. 
Editora Sarau das Letras, 
Trecho do Conto: 
Inventor de Contos
2014, p. 61

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Trecho de Obras


Os escritores são assim, usam suas palavras como se fossem varinhas mágicas que criam pessoas e mundos imaginários. Criam histórias e nos fazem acreditar nelas, e até vivê-las, como se entrássemos literalmente nas páginas de seu livro. 


Margarete Solange 
Do livro O Silêncio das Lembranças

Queima-Bucha, 2011,p.199..

Uma Máxima

O homem pode não ser rico, mas se ele tiver na bagagem a leitura será mais que isso: será sábio. A sabedoria, sem dúvida, é grandiosa, é tudo na vida, não na morte. Na morte, todos os homens são igualmente leigos.

Margarete Solange


do livro Ninguém é Feliz Sem Problemas.
Fundação Vingt-un Rosado, 2009

Saudade Ferina

 Margarete Solange
Com ele aprendi tanta coisa. Ele tinha por mim um amor tão sincero, adorava minha companhia. Todas as noites sentávamos em nosso banquinho debaixo do vasto céu para conversar. Ele me ouvia e compreendia, era sensível aos meus sentimentos. Preocupava-se ao ver-me chorar. Eu o amava tão intensamente que por causa dele mudei alguns de meus costumes e fiz coisas que antes nem imaginava fazer. Aprendi com ele uma nova maneira de ser e de amar. Foi tão surpreendente e doloroso vê-lo inerte, com olhinhos parados, fitando-me sem me ver. Olhinhos que eu amava tanto. Eu sabia que o futuro iria tirá-lo de mim, por isso passava pelos dias lentamente adiando o porvir. Tomava posse do presente ao seu lado, apertando-o em meus braços sabendo que estava vivendo o passado. Por duas vezes escapou da morte, que veio ao seu encontro ameaçadora e possessiva. Então acreditei que nessa terceira luta, ele novamente seria o vencedor. Todavia, a velhice chegou antes da hora e lhe trouxe um nódulo na tireóide e uma anemia profunda. Ele lutou tão bravamente porque queria permanecer ao meu lado, eu lia isso em seus olhos. Agora, todas as noites uma saudade ferina grita o seu nome e ele não vem porque não está em lugar algum, mas as lembranças estão por toda parte. E eu nem quero que elas me deixem porque um grande amor a gente não quer esquecer. É tão difícil não tê-lo, porque ele ocupava um espaço muito grande em meu coração e agora esse espaço está vazio. Com lágrimas nos olhos e uma profunda dor na alma escrevo e dedico a ele, meu grande amigo REX – Rei em latim –, estas minhas palavras de lamento. Ele não era tão somente um vira-latinha... Era inteligente, alegre, divertido, apaixonado... Era o Rei REX... e eu o amava!


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O Silêncio das Lembranças

O romance se divide em duas fases. Na primeira, a narradora Marisca inicia com uma pincelada na infância e então no terceiro capitulo já entra na adolescência. E ai muita coisa acontece nesse período em que as meninas estão descobrindo o amor. Até a metade da obra o cenário é composto pelos sítios e pela Casa Grande da família paterna. Na segunda parte da história, todo mundo ficou adulto, então, acontecem as reviravoltas e grandes emoções.
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Resumo da obra 
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Marina e Marisca, duas meninas apaixonadas por leitura e pelo contato com a natureza. Felizes, brincam soltas pelos sítios que pertencem às suas tias, nos derredores da querida Casa Grande em Jardim das Vargens. Marisca, atrapalhada e dotada de imaginação fértil, confunde a realidade com o mundo dos livros. Espiona, às escondidas, os encontros de Marina e Stony, desaprova amizade da irmã com o solitário pintor. Tenta, de todas as maneiras sondar que tipos de pensamentos e sentimentos se escondem no íntimo da sensível Marina e do misterioso rapaz. Como não consegue compreender totalmente o envolvimento dos dois, inventa, dando sua própria interpretação, a partir daquilo que vê, ouve e ler no caderninho de páginas amarelas, no qual a irmã revela seus sentimentos. Acredita que pode protegê-la das ciladas preparadas pelo coração e assim atrapalha o romance dos dois com a missão de conduzi-la a um destino melhor. Na fase adulta, torna-se jornalista e escritora; então resolve juntar tudo o que leu, viu e ouviu para escrever um romance no qual Marina é a personagem principal. Narrando sobre a irmã, revela tudo o que sabe, todavia, falando de si mesma, omite detalhes importantes. Quanto aos sentimentos do solitário pintor, não há muito que revelar, uma vez que, como ela mesma costuma dizer em sua narrativa, “não se pode sondar o íntimo de um coração sem janelas”.
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Trechos do Posfácio

Do mesmo modo que, ao lermos uma obra, podemos nos identificar com vários personagens, um único personagem pode ter sido baseado em diversas pessoas. [...]

É natural que o romancista busque nas pessoas da vida real ou em personagens de outros autores características para suas criações. Stony, Marina e Heitor, por exemplo, são baseados em Heathcliff, Catherine e Edgar, personagens do romance de Emily Brontë. [...]

Pois é, às vezes até desejamos dar um final diferente a nossas criaturas, porém, nem sempre depende de nós autores fazê-lo. Eu sinceramente não esperava que Marisca aprontasse tudo que ela aprontou. Por vezes, planejamos de um jeito, mas o personagem teima e faz de outro, completamente fora do planejado. [...]
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.(Trechos do posfácio da autora Margarete Solange).
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Algumas cenas ilustradas


Para onde vai a criança que fomos um dia? Por acaso se perde no tempo?... morre?... se vai?... – Não. Está dentro de nós, até o fim de nossos dias. (p.84)

Ouvi falar que o seu Bastos havia sido mordido por um jumento e resolvi interrogá-lo sobre o incidente. Ele mostrou-me o braço direito que ficara bastante deformado a altura do antebraço e depois iniciou sua narrativa animado. (p.46)

Assim, estavam juntos outra vez, conversando amigavelmente, embora discordassem de vez em quando. Stony lia bastante e tinha muitas coisas interessantes para contar. Minha irmã ouvia, deslumbrada, quando ele derramava seus conhecimentos. (p.64)
Aproximou-se de mansinho e abraçou-a pela cintura. Apertou o seu rosto contra a cabeça de minha irmã. (p.69)


Permaneci apoiada à murada principal, que dava vista para a estrada larga por onde passavam os carros. Embora parecesse tranquila, não estava. Corria os olhos até onde podia alcançar a vista das vastas terras férteis. Contemplei a paisagem turva, por causa das lágrimas que brotavam incessantemente, descendo-me pelas faces. (p.83)

Desta vez sou eu quem vai inventar a história desse “chalé”... e vai ser um conto de terror, queridinha... prepare-se! (p.125)


Foi nessa época que escrevi o poema “O Silêncio das Lembranças”: (p. 175)
Era uma noite fria de dezembro de 1982. Marina e eu conversávamos em seu quarto diante do espelho. (p.194)

Levantei-me e segui até a janela que dava para o pátio da frente da casa e como era noite, eu nada poderia contemplar, além das sombras. O vento frio que soprou os meus cabelos curtos e ruivos nesse instante pareceu ter levado com ele as lembranças que eu queria sepultar. (p198)


A Fonte das Pedras Limosas era somente um lugar fantástico onde duas meninas brincavam de inventar histórias. Minha irmã, como toda escritora de talento, tem uma imaginação muito fértil: criou um personagem e me fez acreditar que ele era real. Pois é, os escritores são assim, usam suas palavras como se fossem varinhas mágicas que criam pessoas e mundos imaginários. Criam histórias e nos fazem acreditar nelas, e até vivê-las, como se entrássemos literalmente nas páginas de seu livro. A partir dos personagens de obras lidas, fazem recriações, e às suas novas criações misturam experiências vividas, roubando ou emprestando características de pessoas do mundo real que estão em sua volta. Marina sempre judiou de mim, testando o poder de suas histórias dramáticas. (p.200)


Custo acreditar que [...] 
E eu que acreditei quando ela me disse que jamais cresceria. (p.202)

Referência
Margarete Solange, O Silêncio da Lembranças
Editora Queima Bucha, 2011
Ilustrações de Jorge Davi e Roanny Phanuelly

domingo, 16 de setembro de 2012

A natureza não envelhece

 Margarete Solange
A natureza me fascina. Mesmo maltratada pelo homem, castigada pelo sol, torturada pela seca, é motivo para belas poesias. 
O veículo avança velozmente, como se voltasse no tempo. Olho a paisagem em volta, é como se o passado estivesse dentro dela. Tudo é tão igual. A natureza não envelhece. Está tal e qual eu a via quando era criança.”
Interrompi o meu texto para apreciar a paisagem. Quando tentei prosseguir, fugiu-me a inspiração. Abri novamente o caderninho de Marina para ler uma crônica na qual ela comparava as pessoas com a natureza. Ela escreveu dizendo:
“A natureza é uma arte sem moldura, feita pelas mãos do Criador dos criadores. A terra seca, o sol causticante, o mato cinzento, empoeirado; tudo isso me faz lembrar Poço-de-Pedras, o interior onde viveram os meus avós maternos. Um lugar perdido em meio a uma selva de galhos secos e pedras sem nenhum valor, mas que para mim e os meus irmãos pequenos eram verdadeiros tesouros, porque éramos inocentes e aquelas veredas de pedras arredondadas, de cores sem brilho eram belas para nós.
A natureza faz-me lembrar algumas vidas humanas. O mato verde seria as pessoas privilegiadas. As serras inabitadas, isoladas ao longe, aqueles que não têm a companhia de ninguém ou que preferem ser solitários. As enormes pedras, estas são iguais aos que nada sentem porque são duros e insensíveis. – Ó pedregosos corações, quem pode compreender os teus sentimentos? O que pode brotar de teu chão pedregoso e resistir entre os teus espinhos? Como podes compreender os que te amam se és como as pedras? Todavia, conforta-me saber que as pedras podem ser transformadas pela água, que insiste ao longo dos anos sem desistir jamais.
Há tragédias na natureza, como há nas vidas humanas, mas ela não maldiz os homens, tampouco o seu Criador. Os galhos secos, quebrados, o rio seco, chão rachado... Tudo se transforma em belas poesias. Quando desce a chuva e outra vez renova as suas cores, ela sorri, esquecida dos dias maus.
Até que ponto os seres humanos são realmente humanos, se fazem tanto mal aos seus semelhantes? Destroem o mundo em que vivem e atribuem ao Criador a culpa do mal que fazem a si mesmos.
Se o tempo voltasse, como podemos voltar ao lugar de onde saímos um dia, eu voltaria e seria outra vez aquela criança inocente, que conversava com Deus quando estava sozinha, que chorava às escondidas e transformava as árvores em companheiras e confidentes dos meus problemas infantis...
Sinto saudade de correr descalça em meio à chuva, de subir em árvores e pular de seus galhos, gritando como se fosse um pássaro livre a voar...”
[...]
Os poetas são pessoas diferentes. São como pássaros: se não podem voar, voam através da imaginação.


Fotografia de Jorge Luiz



Margarete Solange
trecho da obra
O Silêncio das Lembranças, 
Queima-bucha, 2011,
 p.200-201,202

domingo, 1 de abril de 2012

Uma Máxima

O homem pode ter asas em sua imaginação e garras como as águias, senhoras das alturas. Se acreditar que é capaz.


          Margarete Solange                                          
trecho da obra de Margarete Solange,
Inventor de Poesia, 
Queima-bucha, 2010, p. 143



sábado, 24 de março de 2012

Tenho aprendido que...

[...] tenho aprendido com todas essas coisas que queremos conhecer e compreender a outros, quando na verdade não somos capazes de entender a nós mesmos. Podemos afirmar que conhecemos e dominamos todos os pensamentos e sentimentos que secretamente se instalam em nossa mente?...

Do livro “O Silêncio das Lembranças” da autora Margarete Solange